terça-feira, 3 de junho de 2014

Você trabalha além de escrever?

É comum nos depararmos com essa pergunta por aí e isso também acontece com os músicos, atores, artistas plásticos e todo mundo que se envolve com cultura. Embora a pergunta costume ser bem ofensiva, comecei a pensar no motivo que leva as pessoas a julgarem que escrever não é uma profissão.

Cartão vermelho pra mim

Era uma manhã ensolarada de novembro. Ia tranquilo no ônibus a caminho do trabalho e aproveitava o trânsito para pensar no mês seguinte, quando eu lançaria meu primeiro livro. Havia optado pela autopublicação e o investimento na editora foi alto, o que me fez parcelar os gastos em alguns cheques. Cheguei no trabalho e o dia seguia como qualquer outro. Eu, um gerente bacana, numa empresa descolada e o diretor me perguntando, como em todos os todos os dias, sobre o andamento do livro... Depois do almoço, o diretor chamou na sala dele e disse que a empresa estava entrando em reestruturação e - puft! - lá fui eu com uma caixa na mão (típica dos filmes quando alguém é demitido) rumo à porta de saída, junto com quase metade dos funcionários da empresa descolada.

O peso do desemprego só foi cair alguns meses depois. Claro! Antes, eu estava envolvido com o lançamento do livro, natal, viagem marcada com o noivo... Tudo era festa, até então.

Eu só fui perceber que o desemprego era ruim quando constatei duas coisas: Primeiro que o mercado de trabalho tem oferecido salários muito estranhos para a realidade de São Paulo, segundo que eu não sou um Paulo Coelho.

Realidade dos escritores iniciantes

A questão é que precisamos encarar a realidade. Sim, escrever é uma profissão. Mas não... Não se sustenta tão simples assim. De duas uma: Quando alguém faz o tipo de pergunta "Você trabalha além de escrever?", ela tá dizendo que conhece a realidade dos escritores ou ela está menosprezando o trabalho. Para o primeiro caso, a razão é que temos uma parcela bem pequena de autores bem sucedidos que encontram na literatura a sua principal fonte de renda (embora isso não queira dizer que um autor iniciante não deva encarar seu trabalho com profissionalismo, a menos que ter renda seja o único objetivo). Mas para o segundo o caso (a desvalorização), quanto mais profissional for o escritor, mais valorizado ele vai ser, mesmo que a profissão não se sustente por si só.

E os filmes? Outro vilão que não nos favorece... Eu vi uns 20 recentemente com personagens autores fracassados.


Diminuindo expectativas e atualizando o LinkedIn

Acho que esse tipo de pergunta revolta mais quando mexe com as nossas frustrações. Eu comecei a me preparar pra ela. Quando alguém me perguntasse, eu queria dizer: "O meu trabalho é escrever!", mas eu fui diminuindo a expectativa. Entendi que o que viesse a partir do lançamento, seria lucro (desde um "Parabéns" a uma venda). Por trás de todo o "glamour" nas publicações pelas redes sociais para divulgar o livro, lá estava eu procurando um emprego. Isso... Um emprego! Daí eu descobri que escrever é uma profissão e não um emprego. Talvez venha daí a confusão das pessoas. E eu não as culpo e nem me irrito mais.

Por fim, consegui um emprego, algo que não tirou meu objetivo de encarar a literatura com profissionalismo. Sabia que precisava de regras, horários, prazos e me cobrar sem essa de levar a ideia de escrever apenas como um hobby. É quase uma vida dupla (quase um Batman, talvez!). As pessoas que vêem de fora podem não entender, mas não é papel delas fazer com nossos sonhos autossustentem.



Nota:
Este blog fala sobre uma visão muito pessoal da minha trajetória de autor iniciante. Não existem regras para novos escritores. O percurso de cada um depende de suas escolhas. Você tem dicas pra melhorar esse blog ou alguma experiência relacionada ao post que gostaria de compartilhar?