quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Teia de Germano

Um papo sobre teias...

O blog existe como um registro dos meus passos de autor iniciante, mas é interessante que, quando me movo, aqui é o primeiro lugar a ficar cheio de teias pelo abandono. Bom... Prioridades, são prioridades, né? O noivo está lançando o romance dele Remoto e Improvável e, juntos, estamos no processo de produção do livro Remetente N15 (que depois faço um post contando desse projeto muito especial).

Mas, falando em teias no blog... Quero contar sobre um livro que li recentemente chamado A Teia de Germano e que passei um tempo pensando antes de querer escrever ao autor minhas impressões. Acredite: Missão dificílima! Primeiro que não sou resenhista e segundo por encontrar nesse livro uma aventura que não é fácil contextualizar.

Roberto Muniz Dias é o autor-pensador e, claro, culpado! É dele a culpa pela viagem à uma ficção marcada pela metalinguagem e a desconstrução da relação autor x personagem. Complexo. Mas é exatamente assim que a mente de um criador é: cheia de complexidades e com a eterna busca pelo significado das coisas. Acho que daí veio a minha verossimilhança.

A história conta sobre Lúcio, um Ghost Writer que está escrevendo a biografia de um outro autor, o Erich. Entre cartas, textos e lembranças dos encontros dos dois escritores, suas vidas começam a convergir... Seja pelo sentimento de solidão, pela busca da essência ou pelos questionamentos do sentido das coisas. Germano é o que considero o grande epicentro. Este é o personagem de um livro escrito por Erich e que Lúcio se sente conectado como se pudesse entender a sua própria existência enquanto descobre o personagem. Para entender essa teia (literalmente), imagine a Matrioshka, uma bonequinha russa onde você vai encontrando uma dentro da outra. Germano é a menor das bonequinhas e que, para ser encontrado, necessita uma desconstrução. A revelação de camadas finas que  separam a vida dos escritores de seus personagens - ora pelas semelhanças ou diferenças, ora pelos fantasmas que assombram nosso imaginário.

Não é uma leitura fácil. A linguagem não é popular. Também acredito que não fosse a intenção do autor tornar as coisas fáceis. Há nele segurança e domínio no que se quer contar. É um livro que nos tira da zona de conforto. O mais interessante é que, se no começo eu achava que não fosse me envolver ou compreender o percurso da história, aos poucos, a minha mente foi tratando de dar um sentido de compreensão muito pessoal sem que eu me forçasse a isso. Não gosto de bater cabeça com coisas complicadas só pra parecer inteligente. É que, de fato, o mundo construído em torno ao Germano, eu o compreendia... Do meu jeito.

Roberto, formação em Direito e Letras e mestre em Literatura, lida com as palavras de forma pulsante. Traz um vasto vocabulário e construções narrativas para leitores que gostam de encontrar novas formas de falar sobre as mesmas coisas. Creio que, em alguns momentos, poderia ter encontrado soluções mais simples  para concluir alguns raciocínios abordados ao longo da história, mas percebi que até nisso há algo de proposital. O escritor é fiel à mente elaborativa de seus personagens. É o tal fluxo de consciência.

Momentos como preparar e tomar um café, o acúmulo de camisinhas no chão, a morte de um passarinho, ouvir música numa vitrola, adoção por pessoas do mesmo sexo são narrados de formas singulares e que me marcaram profundamente.

Em sua conclusão, ele ainda nos permite mais uma ruptura. Cheguei tão próximo do epicentro - Germano - que um fator surpresa se revela sem que tivesse me preparado para outras possibilidades: as camadas se revelam até a última frase. Gostei disso (depois que caiu a ficha, claro... rs). Quando a história termina, não dá para formar uma opinião sem recordar alguns pontos chaves na história. Só depois de uma boa reflexão é que compreendi, de fato, que não foi possível sair dessa teia sem que um pouco dela ficasse em mim.


Roberto Muniz Dias está com o livro à venda pela AMAZON!
Deixo aí minha dica e os parabéns aos autor.